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Fábio Póvoa: “O principal é extrair aprendizados de cada desafio superado”

Por Juliana Ewers De empreendedor a investidor. O engenheiro de Computação – formado pela Unicamp e com MBA pela Universidade da Califórnia Berkeley, no Vale do Silício – Fábio Póvoa

Entrevista com o Empreendedor

Por Juliana Ewers

De empreendedor a investidor. O engenheiro de Computação – formado pela Unicamp e com MBA pela Universidade da Califórnia Berkeley, no Vale do Silício – Fábio Póvoa é um experiente empreendedor de nosso ecossistema, com uma bagagem ímpar tanto para quem está começando a empreender, como para quem já trilha esse caminho há mais tempo.

Póvoa é Cofundador da Movile – caso de sucesso brasileiro em startup de alto crescimento e hoje, plataforma global de mobile commerce. E, após vender sua participação, começou a atuar como investidor anjo, com uma abordagem de smart money, na qual conjuga investimento, orientação estratégica, experiência prática, networking experimentos de tração, junto a empreendedores selecionados a dedo, tidos para ele como os mais promissores do país.

Para que a história de Fábio Póvoa chegasse até aqui, foram vários os capítulos. Acompanhe a seguir os destaques desse empreendedor do ecossistema de Campinas na entrevista a seguir:

Nessa mudança de papéis, quais os principais desafios encontrados ao longo do caminho e quais foram os seus maiores aprendizados?

Meu maior desafio foi – por conta própria, sem qualquer formação específica e apanhando muito na selva de pedra de negócios nacional – me autotransformar de computeiro a empreendedor.

O playbook de Lean Startup – metodologia de validação de hipóteses que servem de fundamentos a empresas de alto crescimento – simplesmente não existia quando decidi empreender, nos idos de 1998. Assim, minha jornada empreendedora se deu como uma montanha-russa de acertos e erros, riscos e conquistas, mudanças de modelo de negócio e contínua reinvenção da empresa, com um sofrimento muito maior do que seria necessário, seja para empreender seja para gerir o negócio.

O maior aprendizado disso está na importância dos fundamentos e do ambiente para um empreendedor. Isso vale para o skillset básico (Lean Startup), o ecossistema desenvolvido (capital, exemplos, referências, melhores práticas, comunidade), entre outros.

Do ponto de vista pessoal, o principal aprendizado é o quão importante é ser flexível, transformar limões em limonadas, extrair aprendizados de cada desafio superado (ou batalha perdida).

Como você descobriu essa veia empreendedora no seu perfil?

Eu a descobri quando conheci e comecei a me envolver com a empresa júnior de computação da Unicamp, CONPEC. Esta empresa permite que alunos trabalhem em projetos de software para empresas contratantes, seja como desenvolvedores, mas também como gerentes de projetos.

Os projetos e o cotidiano na Conpec abriram um universo muito maior do que aquele existente na universidade, limitado a provas, estágio, iniciação científica e afins.

Eu pude descobrir então o quanto gostava, e me saía muito melhor, na interação com clientes, gestão do time de desenvolvedores, definição do escopo de requisitos, necessidades e oportunidades de negócios, diferencial competitivo, pricing, e outros diversos elementos do mundo empreendedor, infinitamente mais fascinante para mim do que código fonte e projetos de pesquisa.

Foi então que decidi empreender ao final da Graduação, fundando minha própria empresa de projetos de software  – na época, chamada Intraweb, de intranets corporativas – ao invés de ir ao mercado arrumar um emprego.

Como foi mudar o lado da mesa, de empreendedor para investidor?

Não existe um motivo principal, mas acredito que tenha sido uma conjunção de fatores. Eu queria voltar a empreender, mas não queria estar à frente da empresa. E com o investimento, eu poderia ter ganhos financeiros consideráveis, me relacionar com founders talentosos e ter contato com startups disruptivas que mudarão o mundo.

O processo foi natural e precipitado com o evento de liquidez obtido após a venda da minha participação na Movile.

Ao dispor de capital, e também toda a experiência e bagagem de doze anos como empreendedor, dois anos de vida corporativa (na Promon e Trópico) e dois anos no MBA no Vale do Silício, eu enxerguei uma enorme oportunidade de abraçar o empreendedorismo, mas agora de modo estratégico, na forma de investidor anjo, selecionando, apoiando, acelerando, apostando e trabalhando junto com empreendedores talentosos.

 Quais os seus critérios para selecionar as empresas em que investe? O que é primordial?

Tenho alguns critérios importantes:

1) Time: procuro despender tempo de qualidade com o(s) founder(s) para entender um pouco sobre o time por trás do negócio. Por que eles empreendem? Qual seu background? Que experiências pregressas (de vida, corporativa) lhes permitiu enxergar esta oportunidade? Que trade-offs eles tiveram de ter para serem empreendedores? Seus skills são complementarem e endereçam as necessidades básicas de uma startup (hacker, hispter, hustler)?

2) Produto: um produto traduz todas as habilidades do time em algo concreto, pelo simples de fato existir. Qualquer um faz um PPT, poucos fazem um produto (app, website, etc) funcional que entregue uma proposição de valor, resolvendo um problema concreto de um nicho de consumidores. O produto não precisa (e não deve, porque seria muito caro) ser perfeito, mas mesmo em estágio de mínima viabilidade, sua existência (e sua usabilidade, inovação, funcionalidade) permite validar as habilidades do time em construir algo que será a essência da oportunidade.

3) Negócio: quão maduro está o time em entender as alavancas do negócio, seja de gestão, seja da jornada empreendedora (fundraising, diluição, etc)? Qual a performance financeira da empresa (ou, muitas vezes, tem um Excel, ou só um PPT e um site/app)?. Qual a modelagem financeira futura projetada? Qual o diferencial competitivo frente a concorrência? Quais as possibilidades de crescimento exponencial em escala? Quais as potenciais saídas do investimento futuro?

Você esteve na Universidade de Berkeley, correto? O que de aprendizado mais te marcou e o que você mais aplica?

Sim, eu cursei o MBA de UC Berkeley entre 2010 e 2012. O que mais me marcou foi quão vibrante é o ecossistema empreendedor do Vale do Silício (região da Baía de São Francisco).

Tal ecossistema contempla alunos, empreendedores, aceleradoras, investidores, universidades, grandes empresas, imprensa, associações, entre muitos outros. O maior aprendizado desta vivência foi o quanto um ecossistema desenvolvido e estruturado facilita a vida do empreendedor e fomenta o surgimento de startups aptas a disruptarem grandes mercados, como temos visto continuamente.

Eu tenho aplicado estes aprendizados na minha atuação no Brasil, ainda que consiga fazê-lo apenas pontualmente, através da disciplina de Lean Startup na Unicamp, do curso de Formação de Investidores Anjos, das palestras e mentorias ministradas através das Startupi Education e do StartSe, do apoio através da Rede Global de Empreendedorismo no âmbito do movimento Campinas Aqui é o Lugar, e, naturalmente, investindo e liderando rodadas nas startups do portfólio Smart Money Ventures.

Existe alguém em quem você se inspire? Quem é e por quê?

Tenho admiração por diversos indivíduos, que foram bem-sucedidos na vida e nos negócios, como o Jorge Paulo Lehman (ABInbev e Fundação Estudar), o Chatô (Rádio Tupi e Diários Associados), o Elon Musk (founder Tesla e SpaceX).

Mas para ser sincero, eu não me inspiro em alguém em particular, e até combato certo endeusamento que muitos brasileiros, particularmente do mundo empreendedor, têm para outros empreendedores, numa visão icônica, midiática, em um pedestal, e que, mais atrapalha do que ajuda.

Eu extraio inspiração e motivação quando constato o genuíno crescimento – pessoal, da empresa, dos negócios, lucros, empregados, clientes e o impacto causado por tudo isso junto – de uma startup investida, ou de um aluno das minhas iniciativas educadoras.

Por exemplo, no CASE (evento da ABStartups), fui parado por dois empreendedores que assistiram a uma palestra que dei no InvestClass, evento da StartSe, e contaram de forma profunda o quanto as ideias e ensinamentos foram absorvidos e colocados na prática por eles na startup que estavam construindo. Eu fiquei até arrepiado e emocionado ao constatar o quanto dois jovens, através de uma aula de 1,5 hora mas com esforço próprio e força de vontade, puderam aprender, crescer e caminhar mais perto de serem empreendedores ainda melhores e bem-sucedidos. Poucas vezes fiquei tão inspirado e motivado como aconteceu neste dia com este encontro com estes dois garotos.

Qual seu livro favorito? Qual lição tirou dele?

Difícil nomear um único porque sou um leitor voraz. No mundo de negócios e do empreendedorismo, estou lendo um livro fascinante, que me foi presenteado por um dos co-investidores da minha rede, chamado 100 Baggers: Stocks That Return 100-to-1 and How To Find Them. Ele discorre sobre empresas que multiplicaram por 100x ou mais seu valor de mercado, seguido de uma análise cuidadosa dos principais motivos e vetores que justificam tamanho crescimento. Leitura fascinante, e cujos aprendizados incorporo na minha atuação para selecionar e depois ajudar startups investidas.

Mas o livro que mais me marcou até hoje foi o The Last Lecture, escrito por Randy Pausch, um professor de Computação que descobre, ainda bem fisicamente, que seu câncer de pâncreas atingiu estágio terminal. Impossível não se emocionar com o testemunho de alguém despertado pela consciência de que vai morrer. A leitura do livro me forçou a reflexão sobre suas reais prioridades, em âmbito familiar, de relacionamentos, com o dinheiro, com seu tempo, e nos negócios.

Que mensagem você gostaria de deixar para os empreendedores que estão começando. Tem alguma dica em especial?

Sim, tenho uma dica quente e especial: não existem dicas quentes e especiais.

Se eu tivesse que articular um ensinamento, ele estaria centrado em 2 pontos:

1) A importância do entendimento de uma oportunidade, do problema fundamental que um segmento de consumidores detém. Esta é a absoluta essência de uma oportunidade, e vejo um sem número de empreendedores "pulando", ou assumindo hipóteses, para ir direto a outros pontos - website, app, monetização, levantar capital, aparecer na imprensa, vender, etc. - que são importantes, mas que decorrem da validação de value proposition.

2) Aprenda a aprender. O sucesso como empreendedor está na sua capacidade de aprender o máximo com esforço mínimo e essencial, seja com o fracasso dos outros (e também os próprios), com experimentos para testar hipóteses e validar unit economics, seja com leituras aprofundadas (mais livros e cursos, menos blog posts e mídias sociais), seja com exemplos externos (por exemplo, startups americanas que já endereçaram os mesmos problemas que muitos empreendedores nacionais estão enfrentando, sem sequer conhecer a realidade externa).

Diferentemente de quando você começou, hoje o ecossistema de Campinas se mostra um pouco mais estruturado para quem deseja empreender no município. Você concorda? O que você acha que ainda precisa ser feito para fomentar ainda mais o empreendedorismo na cidade?

Concordo ipsis literis! Na minha época, não havia a metodologia Lean Startup, aceleradoras, investidores anjo, movimento de empreendedorismo, startup filhas da Unicamp bem-sucedidas como Movile e Ci&T, entre outras.

A meu ver, Campinas e região têm muitos dos elementos fundamentais para ser um polo de empreendedorismo, mas falta articulação e atuação conjunta. É exatamente por este motivo que me engajei, repercuti, patrocinei com capital e meu tempo, e atuo como conselheiro da RGE, que a meu ver é uma iniciativa que endereça exatamente esta deficiência em Campinas.

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