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Silvia Brandalise: “Os grandes ensinamentos por mim aprendidos foram aqueles transmitidos pelas crianças”

Mulher forte com um grandioso projeto em mãos, ela é a professora Sílvia Regina Brandalise, conhecida e reconhecida por idealizar em 1980 e liderar até hoje o Centro Infantil Doutor Domingos Boldrini, em Campinas, considerado o maior hospital especializado da América Latina na área da onco-hematologia

Entrevista com o Empreendedor

Por Juliana Ewers

Mulher forte com um grandioso projeto em mãos, ela é a professora Sílvia Regina Brandalise, conhecida e reconhecida por idealizar em 1980 e liderar até hoje o Centro Infantil Doutor Domingos Boldrini, em Campinas, considerado o maior hospital especializado da América Latina na área da onco-hematologia pediátrica, e que atende a cerca de sete mil pacientes por ano. A maioria deles – algo em torno de 80% –  vindos do SUS (Sistema Único de Saúde).

Empreendedora social que viu no sonho da medicina um campo de oportunidades para fazer a diferença, Silvia Brandalise conta um pouco de sua trajetória e reforça aos que querem começar a empreender a importância de inspiração e transpiração para fazer um mundo melhor. Confira!

Em primeiro lugar, gostaria que a senhora narrasse um pouco da sua trajetória, destacando especialmente os principais desafios e os maiores aprendizados que a senhora teve nesses anos todos.

Desde os primeiros anos do ensino fundamental, sempre me encantavam as aulas de Ciências, de História Natural e de Biologia. Ainda adolescente, desejei fazer Medicina como única opção. Talvez tenha sido esta inclinação vocacional, que tenha propiciado eu escrever para o médico Albert Schweitzer – residente em Lambarené, República do Gabão – declarando minha admiração pelo trabalho dele na África, junto à população carente. Com o exemplo dele, aprendi que o desejo de ajudar o próximo era o grande diferencial para ultrapassar quaisquer desafios.

Realmente, não me recordo de grandes desafios enfrentados. Todavia, me lembro com facilidade, que os grandes ensinamentos por mim aprendidos foram aqueles transmitidos pelas crianças. Alegria, arte, sorriso, música, poesia, compaixão, coragem, fé e esperança, assim como os sentimentos, não retiram a dor ou a tragédia, mas as transformam, tornando-as suportáveis.

Como você descobriu essa veia empreendedora no seu perfil? O que te atraiu nesse caminho?

O inconformismo com a precariedade das condições físicas e estruturais da Santa Casa de Misericórdia de Campinas, onde funcionava a Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, sem dúvida, foi a força motriz para a incessante busca de melhorias para os pequenos pacientes internados. Eram 50 leitos. Muita pobreza!

Como nunca fiz medicina privada, quando alguém queria retribuir por um atendimento médico prestado, sempre tinha algo a pedir como lençóis, cobertores, seringas descartáveis, e outros materiais para uso local. Sem dúvida, o desafio de não ter foi a motivação para cada conquista.

Considerando as dificuldades de se empreender na área de saúde no Brasil, como foi empreender nesse setor e ainda atuar no tratamento de uma doença tão delicada e grave?

As dificuldades enfrentadas pelo Centro Boldrini, em consonância com a precariedade na área da saúde em nosso país, somente puderam ser superadas pela parceria técnico-científica com a Unicamp. A Faculdade de Ciências Medicas foi o grande suporte para o desenvolvimento médico e de pesquisas do Centro Boldrini. Todavia, foi a Sociedade de Campinas, desde a fundação do Boldrini, em 1978, a grande financiadora da sustentabilidade institucional.

Novamente, o desafio da busca da cura do câncer da criança me motivou a assumir o comando nacional do Grupo Brasileiro de tratamento da Leucemia na Infância (GBTLI), que coordeno desde 1980 até a presente data. Sem dúvida, foram os gigantes internacionais da área da Leucemia pediátrica que me estimularam na incessante busca de novos conhecimentos, traduzidos pela elaboração de consecutivos Estudos Clínicos Cooperativos, com a participação de diversos Centros nacionais.

Como o Boldrini se sustenta atualmente? Para você, quais são os maiores desafios da instituição?

O Boldrini atende 80% dos pacientes vinculados ao Sistema Único de Saúde, o que resulta em quase 30% das receitas financeiras. Os 20% de pacientes com convênio privado, por sua vez, garantem mais 30% das receitas. Finalmente, a Sociedade de Campinas e região contribui com 30% a 40% das receitas.

Nossos grandes desafios estão centrados nas novas conquistas, novos conhecimentos, desenvolvimento de tecnologia de ponta, de pesquisas inovadoras, culminando com o custeio de manter pesquisadores voltados ao estudo do câncer pediátrico. Adicionalmente, proporcionar aos doentes crônicos, o suporte social para capacitação e pleno desenvolvimento de sua autossustentabilidade e qualidade de vida.

Voltando a falar dos elementos inspiradores nessa trajetória, existe algum livro do qual você se lembre de alguma lição que tirou dele?

Muitos livros me inspiraram. Um deles, O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, foi lancinante no aspecto nefasto e cruel da nossa omissão social. “Se a Justiça fosse justa, não haveria necessidade da caridade”, são palavras deste escritor português.

Outro autor que me ensinou uma visão global foi o Fernando Pessoa. "Sê inteiro em tudo o que fizeres...". Frase que ecoa com frequência em meus ouvidos.

Que mensagem você gostaria de deixar para os empreendedores que estão começando. Tem alguma dica em especial?

Para os jovens que estão começando, sugiro andar acima das nuvens, olhando para o azul infinito e radiante do céu - sem limites ou fronteiras - decantando nas nuvens as mágoas e tristezas. Recomendo colocar o Eu em Nós, o Nós no Eles e o Eles em Nós. O Homem a serviço do Homem e da Natureza, como escrito pelo Albert Schweitzer.

Hoje, o ecossistema de Campinas se mostra um pouco mais estruturado para quem deseja empreender. O que você acha que ainda precisa ser feito para fomentar novos negócios na cidade?

Desconheço este ecossistema estruturado de Campinas. Continuo vendo a pobreza e a desigualdade social. Não vislumbro desenvolvimento social e econômico na região, sem redistribuição da renda, sem a oferta de exercício civil obrigatório por parte de cada um de nós – em distintas áreas de atuação profissional – para cataliticamente propiciar o desenvolvimento harmônico daqueles menos socialmente providos.

Enquanto houver bolsões de miséria na cidade, ao nosso redor, a região de Campinas não estará estruturada. Deveremos fomentar para os novos empreendedores diminuírem significativamente os níveis de desigualdades sociais da nossa cidade. Esse será o primeiro passo para o desenvolvimento real.

O que você vislumbra para o município no futuro?

Enquanto tivermos um Brasil contaminado pelos elevados índices de corrupção, enquanto tivermos a contaminação da política – na sua pior concepção – nas diretrizes educacionais, de saúde, de trabalho e desenvolvimento, enquanto tivermos a impunidade de crimes contra o patrimônio público, como vivenciados há décadas, será difícil vislumbrar um futuro promissor para o nosso país, estado e a cidade de Campinas.

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