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Samuel Goto: Mirar alto e estudar costumam trazer uma sorte danada

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Por Juliana Ewers

Ele mesmo diz: “tudo o que eu queria era me divertir”. E deu no que deu. Samuel Goto, atual engenheiro do Google, começou sua trajetória em Campinas, onde cursou engenharia de computação na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). E foi movido pela sua curiosidade aguçada, que ao longo da sua jornada começou e levou em frente projetos que hoje, o colocaram como está.

Isso não quer dizer que o caminho tenha sido fácil. Exemplo disso é a entrevista bem pouco convencional e desafiadora para entrar em uma das empresas mais inovadoras do mundo, que ele carrega na sua bagagem de experiências. E que fez parte dos tantos aprendizados para hoje mentorar empreendedores que querem seguir seu sonho de ter o próprio negócio.

Quer saber mais sobre a trajetória desse rapaz? Confira a entrevista abaixo.

Ah, só mais um detalhe: você se lembra daquelas fotos que ficavam na capa do Orkut.com, quando você ia acessar a sua conta? Pois é, até lá ele já esteve (quarta foto da esquerda pra direita).

 

Como o empreendedorismo entrou na sua vida?

 

Eu nasci e cresci numa época muito interessante na história do mundo: uma série de programadores e não-conformistas, desconstruindo algumas das principais estruturas de poder da minha geração, com uma ideia na cabeça e um computador na mão. Eu cresci vendo o Jimmy Walles inventando a Wikipedia e oferecendo uma solução aberta aa Encarta; o Linus Torvalds e o Marcelo Tosatti desenvolvendo o Linux, oferecendo uma alternativa para software proprietário; o Stallman levando a GPL e FSF; e o Tim Berners-Lee inventando a Web.

Os meus heróis de criança eram esses: programadores com um desrespeito saudável pelas estruturas de poder da época e uma habilidade e autonomia incríveis de execução. Ao contrário de outras indústrias – exemplos: um engenheiro civil querendo fazer uma ponte, um economista projetando um novo design de incentivos ou um médico pesquisando um novo tratamento – esses programadores tinham baixíssimos custos de execução, distribuição e regulamentação.

O empreendedorismo entrou na minha vida nessa mistura de idealismo, romantismo e não-conformismo, que foram os anos 1990.

Eu achei que esse não-conformismo fosse passar depois que eu virasse adulto, mas aparentemente não passa. Ou eu ainda não cresci. .

Você sempre se engajou em projetos fora da faculdade e da sua vida profissional, como isso foi importante para que você se destacasse e recebesse novas oportunidades?

 

Eu sempre tive uma série de projetos paralelos e eles sempre foram muito correlacionados (não necessariamente causais) a oportunidades incríveis.

Por exemplo: eu sempre gostei de xadrez, por nenhum motivo prático. Era interessante e puramente por curiosidade. Eu me interessava saber como funcionavam os algoritmos de xadrez: como uma máquina é capaz de jogar xadrez? Fascinante, não? Dessa curiosidade saiu meu primeiro estágio, numa empresa de jogos em São Paulo, desenvolvendo inteligência artificial.

Os anos se passaram e eu continuei interessado. Anos depois, eu encontrei o Ken Thompson, um dos meus grandes heróis de infância, e tive a oportunidade de explorar com ele Endgame tablebases. Mais recentemente, o Peter Norvig – outra pessoa que eu tenho uma admiração muito grande – me achou também e hoje estou trabalhando com ele na nova edição online do livro dele:, Inteligência Artificial, uma Abordagem Moderna.

Era muito difícil antecipar que tipo de oportunidade iria aparecer a partir dos projetos com os quais eu me envolvia. Eu costumo falar que muitas dessas oportunidades apareceram puramente ao acaso e por sorte, mas é muito engraçado como mirar alto, estudar e trabalhar costumam trazer uma sorte danada.

Mirar alto como estratégia tem sido útil para mim na vida: muito raramente eu acerto onde eu estava mirando originalmente (e.g. fazer uma maquina jogar xadrez), mas mirando alto acabei acertando coisas legais na vizinhança lá em cima (e.g. conseguir um estágio no Google).

Eu sempre achei que a minha curiosidade fosse passar quando eu crescesse, ou pelo menos diminuir. Aparentemente também não passa não.

Como foi o processo de sair da Unicamp e ir direto para o Google no Vale do Silício? Você sentiu algum tipo de dificuldade?

 

Eu tive a sorte de ter viajado muito antes de me mudar permanentemente para o Vale do Silício. Culturalmente, foi um processo muito natural para mim. Eu falava inglês bem, eu conhecia pessoas na área, e eu sabia lidar muito bem com a diversidade cultural de outros países. Desde pequeno, minha família me colocou em contato com o mundo (e.g. minha mãe sempre manteve uma biblioteca muito grande/diversa na nossa casa: de enciclopédias até os principais pensadores), então, eu estava relativamente preparado.

Ainda assim, eu encontrei uma série de dificuldades. Talvez a mais interessante, academicamente, foi o choque cultural corporativo: os americanos trabalham de forma substancialmente diferente dos brasileiros. Desde a relação na estrutura organizacional (dica: no Vale, via de regra, ser gerente não é legal ou tão glamuroso assim), até os padrões de linguagem (e.g. eles escrevem diferente da gente. Eles começam com a conclusão e, daí, apresentam os argumentos depois. Diferentemente dos brasileiros, que começam com a introdução e terminam os textos com a conclusão), existia uma série de coisas que eu aprendi trabalhando aqui.

É muito longo para eu explicar aqui, mas a primeira vez que eu entrei em contato com o conceito de PDI (Power Distance Index) foi esclarecedor. Vale a pena dar uma olhada, se você for brasileiro e trabalha com gente de fora do Brasil.

O que te levou a tomar essa decisão? E o que você considera mais importante nos resultados que conquistou a partir disso?

 

Profissionalmente, a decisão mais difícil, e a que eu ainda não estou completamente satisfeito, foi decidir se eu ficava na academia/universidade ou se eu ia para a indústria. Eu estava abrindo uma empresa na época e tinha absoluta certeza de que não era isso que eu queria. Uma vez decidido ir para a indústria, escolher o Google foi relativamente fácil. Facebook e Amazon não existiam, e a Apple e a Microsoft trabalhavam com software proprietário.

Eu tenho uma convicção muito grande de que abrir uma empresa não era uma boa estratégia na época. Para mim na época, nem para alunos se formando agora, na minha opinião. Mas fico um pouco no muro se a decisão de vir para a indústria, ao invés de ter ficado na academia/universidade, foi realmente acertada. Eu gosto muito do que eu faço, mas eu tenho dois amigos meus da minha turma que foram para a academia (Harvard e Stanford) e eu tenho uma admiração muito grande pela contribuição deles.

Eu tenho uma série de resultados que eu gosto muito. Exemplo: eu estive na capa do Orkut.com, eu escrevi coisas para bilhões de pessoas no Gmail.com. Mas devo admitir que eu ainda não estou satisfeito com minhas contribuições técnicas. Não produzi nada que sobrevive a minha existência ou a minha geração. Talvez um dia apareça. Talvez não. Mas não vai ser por falta de mirar alto e tentar: na minha experiência, sempre sai alguma coisa útil dessa estratégia.

Estar inserido anteriormente em um ecossistema como o de Campinas colaborou de alguma forma? O que Campinas te ofereceu para chegar lá?

 

Eu nasci e cresci em Campinas. Então, eu tenho um carinho muito grande pela cidade. Além da minha família e amigos, eu acho que a Unicamp tem um lugar especial no meu coração.

A minha vida adulta inteira derivou do meu tempo na Unicamp; da minha rede de amigos, passando por o lugar onde eu conheci a minha querida esposa até a oportunidade de trabalhar com meus orientadores (Rodolfo Azevedo e Guido Araújo). É difícil achar alguma coisa que eu não tenha de atribuir às origens na Unicamp.

Eu trabalho com pessoas do MIT, Stanford e Harvard, que saem com uma dívida de 400k a 500k de financiamento de educação. E eu estudei por 7 anos de graça, entre a minha graduação e o meu mestrado. Eu me sinto pessoalmente endividado com a Unicamp e faço um esforço deliberado para pagar de volta.

Exemplos disso são:

http://weme.nu/en/startups/

http://www2.ic.unicamp.br/noticias/chamada-bolsas-alumni-ic-unicamp

Estando no Vale há bastante tempo e conhecendo Campinas, o que você pode listar como as maiores diferenças? Em que Campinas precisa evoluir e o que a cidade já tem de favorável para criar um ecossistema promissor?

 

Campinas tem uma série de fatores parecidos com o Vale, como: uma universidade de ponta – a Unicamp aí e Stanford e Berkeley aqui. Algumas diferenças sociais que talvez tenham um papel na performance do ecossistema.

A primeira coisa que aparece gritante é o nível de tolerância ao risco calculado. A média das pessoas aqui calcula risco muito bem e sabe tomar decisão em jogos de informação incompleta. Valor esperado, mediana, percentil e probabilidade fazem parte do vocabulário das pessoas ao tomar decisões e, racionalmente, sabem ver oportunidades onde a maioria das pessoas enxerga risco.

A segunda intuição que eu tenho é de que o Vale é mais colaborativo do que o ecossistema campineiro. As pessoas sabem que esse não é um jogo de soma zero e que existe uma abundância de oportunidades. Acho que é uma combinação de duas observações: (a) tem mais problema do que gente e (b) ideias não valem nada. Execução é tudo que importa.

Você acha que a experiência do Vale do Silício pode ser replicável? Você vê sentido em tentar replicar um ecossistema ou crê que a questão da cultura é determinante para cada ecossistema?

 

Não e não. O Wagner Foschini, da Weme, usa um termo que eu gosto muito: “cabracórnios”, para se referir a unicórnios brasileiros.

Eu tenho a intuição de que replicar o modelo do Vale não é muito razoável. Tanto o capital de risco como as universidades fazem da região um lugar muito específico.

Na minha opinião, ao invés de se tornar um bom jogador nos mesmos termos do jogo do Vale do Silício, eu exploraria a direção de criar um jogo novo, que torne o jogo do Vale obsoleto.

Não se pergunte como o Rock inglês se replicaria no Brasil: se pergunte qual é a Bossa Nova da inovação.

Que forma tem um cabraconio?

Qual o potencial que vê em Campinas?

 

Eu tenho um carinho muito grande por Campinas e eu vejo um mar de oportunidades e potencial. Dois lugares, no entanto, me chamam muito a atenção: a Unicamp e a Weme.

A Unicamp dispensa introduções.

Mas eu tenho um carinho e admiração muito grande pelo trabalho que o Wagner e o Mauricio estão fazendo na Weme.

Eu ficaria de olho.

Chances de que são desses dois lugares que as coisas vão acontecer nos próximos anos em Campinas, no que diz respeito à inovação tecnológica.

RGE Campinas
Postado por: RGE Campinas
Publicado em: 11/04/2018

A Rede Global do Empreendedorismo acredita que o Brasil pode se transformar em uma referência mundial no tema de desenvolvimento do ecossistema empreendedor. Mas, apesar de ¾ da população afirmarem que prefeririam abrir seu próprio negócio, o empreendedorismo ainda é visto como coisa de super-herói no Brasil.

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